[048] Oscaritos - 2026
Sobre os filmes concorrendo ao Oscar (às categorias que me interessam)
Você achou que eu estava blefando, não é, seu demônio mentiroso e corrompido?
Pois não estava! Foram em vão suas esperanças!
Chegou nosso momento de falar dos filmes do Oscar. Espero que você tenha visto alguns, mas não todos. Explicarei quais e por quê mais adiante. Se você não viu, não se preocupe: evitarei spoilers. Ou ao menos terei a decência de avisar com antecedência.
Exceto em um caso.
Explicarei qual e por quê no momento oportuno.
📌AS PRIMEIRAS COISAS PRIMEIRO!
Provavelmente você não se lembra de como essa brincadeira funciona (eu também não me lembrava, fui copiar o texto da última vez que fiz algo assim), mas aqui vão as explicações sobre o que se segue:
O post começará com o título em português, seguido do título em inglês caso você queira procurar por ele em ambientes de… digamos… compartilhamento voluntário. Daí teremos minha avaliação, a mesma que atribuí no Letterboxd, ou seja, de meia estrela a 5 estrelas. Para simbolizar meia estrela, usarei este ícone:🌟 (e pra simbolizar uma estrela normal usarei uma estrela normal, é óbvio).
Sob o título virão as indicações recebidas. Listarei inclusive as que não me interessam.
Procurarei escrever sobre cada filme na ordem em que foram vistos, não de preferência, ordem alfabética, data de lançamento, número de indicações ou sorteio organizado pela Loteria Federal™.
Não haverá versão resumida dos meus comentários, pois as estrelas já servem para isso. Se estiver com preguiça de ler, não leia. Eu também tenho preguiça de ler um monte de coisas, entendo o sentimento. Vá fazer algo que te interesse mais, volte outro dia, daqui a uns meses, quando eu morrer, não volte nunca, fica a seu critério. Não levarei para o coração.
Por fim, direi onde você pode assistir cada um (todos estão na Locadora Sueca™, então não pretendo repetir essa informação a cada título, indicarei apenas se estão disponíveis em outros lugares).
Sem mais, partamos:
🎞️ PECADORES (SINNERS) ⭐⭐⭐⭐🌟
INDICAÇÕES: Ator (Michael B. Jordan), Ator Coadjuvante (Delroy Lindo), Atriz Coadjuvante (Wunmi Mosaku), Elenco, Fotografia, Figurino, Direção, Edição, Maquiagem, Trilha Sonora Original, Canção Original, Filme, Design de Produção, Som, Efeitos Visuais, Roteiro Original (DEZESSEIS indicações, se você estiver com preguiça de contar – EU ESTARIA!)
Smoke e Stack, irmãos gêmeos, ambos interpretados por Michael B. Jordan, retornam para sua pequena cidade de origem, Clarksdale, no Mississippi, em 1932, depois de uma década trabalhando para a máfia em Chicago. Estão montados na grana e querem abrir uma casa de festas exclusiva para negros (e chineses, e mestiços, você entendeu, para os não-brancos). Para isso eles passam a primeira hora do filme reatando laços, reencontrando afetos e desafetos e convencendo – na base da lábia, do charme ou da pecúnia – aqueles que podem ajudar nessa empreitada a se juntar ao bonde.
Um dos arregimentados é Sammie, primo de Smoke e Stack, sujeito que toca uma viola como ninguém! Logo no começo da história, um voice over avisa que existem pessoas que podem tocar uma música tão foda que é capaz de rasgar o véu entre a vida e a morte e conjurar espíritos do passado e do futuro. Então todas as peças são colocadas no tabuleiro e a brincadeira começa.
Eu não vou dizer qual é o mal que a música do Sammie evoca, especificamente, mas é óbvio que esse mal vem personificado nas figuras de pessoas brancas, que fazem o possível e o impossível pra foder com o rolê alheio (porque se você é negro e faz uma música muito, muito foda, é exatamente isso que vai acontecer). Se quiser saber detalhes, vá conferir. Mas vale dizer que Ryan Coogler conseguiu contar, em uma mesma narrativa, um drama de época e uma história de terror. Mais do que isso: uma história de terror que faz você se importar com os personagens, porque ele não tem pressa ao te apresentar cada um deles, ao deixar todos dizerem quem são e por que estão ali. As 16 indicações são surpreendentes pelo volume, mas fazem jus à qualidade do longa, ao esmero da produção, à belíssima fotografia, ao elenco formidável, às atuações e – disso eu nem preciso falar – à trilha sonora.
PORÉM
Acredito que esse será um daqueles títulos com muitas indicações e poucas estatuetas. Tenho a impressão de que será atropelado por um outro concorrente, que chegará tal e qual Oppenheimer chegou dois anos atrás: limpando a casa.
Os prêmios de trilha sonora E canção original são garantidos, entretanto. Se eu fosse um homem de apostas, apostaria nesses.
📺 ONDE ASSISTIR? HBO Max.
🎞️ A HORA DO MAL (WEAPONS) ⭐⭐⭐⭐
INDICAÇÕES: Atriz Coadjuvante (Amy Madigan) (1 indicação)
Em uma cidadezinha da Pensilvânia, 17 crianças saem de casa uma certa madrugada, todas no mesmo horário, às 2h17min, e correm para dentro da noite. Todas elas da mesma classe no colégio. Apenas um moleque e a professora da turma estão presentes em sala no dia seguinte.
Estabelecido o mistério, vamos pulando de história em história: a da professora. A do policial. A do nóia local. A do pai de um aluno. A do moleque. A cada história que acompanhamos, a trama vai se adensando, com as monstruosidades cotidianas de cada um se oferecendo como o verdadeiro horror que é observar as pessoas muito de perto. E as peças vão entrando em seus lugares. É uma forma curiosa de contar uma história de terror (que logo – ao menos foi a sensação que eu tive – se converte em um suspense).
Não me espanta, contudo, que tenha apenas uma indicação. É um bom filme, mas não é produção de Oscar, ainda que o diretor, Zach Cregger, tenha produzido um roteiro excelente – para o que se propõe –, reunido um elenco excelente – para a obra que desejava filmar – e demonstre competência narrativa também ela excelente para nos conduzir pela história que pretende contar.
Apesar dessa tripla excelência, resultado final permanece na linha do “muito bom” apenas porque, de um ponto de vista mais amplo, não há muito ali. Claro, a academia já premiou coisas que não chegavam nem a ser “muito boas”? Já. Obras medíocres, alguns até mesmo ruins. Infelizmente para Zach Cregger ele fez um filme “muito bom” em um ano de filmes excepcionais!
De todo modo, eu ficaria muito feliz em ver Amy Madigan levar o Norrin Radd pra casa. Nem é por esse trabalho, mas por Campo dos Sonhos mesmo (filmaço que, em 1990, perdeu os prêmios para os quais foi indicado para Conduzindo Miss Daisy, uma daquelas histórias que fulanizam o racismo, reduzindo-o a mera divergência de opiniões ou coisa que o valha).
📺 ONDE ASSISTIR? HBO Max.
🎞️ FRANKENSTEIN ⭐⭐⭐
INDICAÇÕES: Ator Coadjuvante (Jacob Elordi), Fotografia, Figurino, Cabelo e Maquiagem, Trilha Sonora Original, Filme, Design de Produção, Som, Roteiro Adaptado (9 indicações)
Eu não vou resumir para você a história do Frankenstein porque, se você não conhece a história do Frankenstein, você é um alienígena e eu não vou te dar munição. Volta pro teu planeta, tá fazendo o quê aqui? Duvido que lá seja pior!
Isto posto, devo dizer que este aqui me deixou triste. Não por ser triste. Me deixou triste porque me colocou numa posição na qual eu não gostaria de estar:
Falar mal do Guillermo Del Toro.
Porém ele merece, porque existem algumas ofensas que eu tolero. Ser chamado de imbecil não é uma delas. E é isso que esse filme faz. Ele vai te chamar de imbecil ao colocar a mesma atriz como mãe e interesse romântico de Victor Frankenstein, como se o amor filial não oferecesse um estado de luto forte o bastante para impulsionar o cientista a buscar uma maneira de driblar a morte. Não, não vamos mover a coisa para a esfera edipiana!
Depois, vai te chamar de imbecil ao estabelecer uma espécie de amor imediato e irresistível entre a criatura e a personagem de Mia Goth, sem explicação ou fundamento e esperar que determinadas reações extremadas façam sentido com base nisso.
E, pior do que isso, ele vai te chamar de imbecil quando outro personagem disser para Victor Frankenstein: “Você é o verdadeiro monstro”, como se toda a exposição, cena após cena, não tivesse sido nada, como se você fosse incapaz de entender o óbvio, como se sutileza, subjetividade e contexto fossem conceitos inexistentes, palavras bobas e sem significado.
Visualmente é bonito? Extremamente! O design de produção é excelente. Das indicações que recebeu, apenas duas são injustas: Filme e Roteiro Adaptado. Se até um relógio parado está certo duas vezes ao dia, podemos também dizer que até uma máquina bem azeitada, com histórico de bom funcionamento, dá tilt em algum momento. Pois temos aqui o tilt do Sr. Del Toro. Acontece. Melhor sorte na próxima!
📺 ONDE ASSISTIR? Netflix.
🎞️ UMA BATALHA APÓS A OUTRA (ONE BATTLE AFTER ANOTHER) ⭐⭐⭐⭐⭐🖤
INDICAÇÕES: Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Sean Penn, Benicio Del Toro), Atriz Coadjuvante (Teyana Taylor), Elenco, Fotografia, Direção, Edição, Trilha Sonora Original, Filme, Design de Produção, Som, Roteiro Adaptado (13 indicações)
Bob Ferguson, antigo revolucionário do grupo French 75, vive escondido com a filha de 15 anos entre a paranoia e a nóia (o doidão vive chapado). Um dia a filha dele de fato desaparece e resta a Bob, em um estupor permanente depois de 15 anos de doses diárias de álcool e maconha, sair em busca da menina.
Lembra quando eu falei, comentando sobre Pecadores, que outro filme deve chegar passando o rodo nessa edição?
Era desse aqui que eu estava falando!
Além da inegável qualidade do roteiro, ritmo, som, trilha sonora, edição, direção, elenco e fotografia, Uma Batalha Após a Outra parece ter sido soprado no ouvido de Paul Thomas Anderson por alguma espécie de musa com um grande tino político, pois se foi lançado ano passado é adequado presumirmos que, do início do roteiro até o lançamento, a produção deve ter levado dois ou três anos. E se tivesse sido lançado em 2024 seria considerado absurdo. em 2027? Seria considerado datado, ou acusado de explorar o sofrimento das pessoas em busca de entretenimento.
Mas foi lançado no exato momento em que os problemas com o ICE se acirraram e o círculo de vilania dos Oligarcas dos Estragos Fudidos vieram à tona. Desta forma, em todo o seu absurdismo, conseguiu a proeza de ser menos absurdo do que a realidade que busca retratar. E em nenhum outro momento estaria tão sintonizado com a situação social dos gringos quanto está agora.
Talvez daqui a vinte ou trinta anos ninguém mais entenda o apelo dessa história. Torçamos por isso. Mas agora, hoje, não acredito que qualquer outra obra de ficção retrate tão bem a pocilga que é a Corpocracia do Tio Sam, os conflitos sociais de utilitarismo x pragmatismo x idealismo que tendem a se exacerbar nestes momentos, a paranoia (particular e social), os traumas e toda a violência, tanto as de causa quanto as de efeito (também causas, por sua vez, já disse Borges).
Além disso ainda fica a impressão de que todos os atores contratados estavam decididos a entregar aquela que poderia ser a melhor interpretação de sua carreira. Leonardo DiCaprio, Benicio Del Toro e Sean Penn eu tenho certeza que estavam disputando. E terão mesmo que disputar, pois dois deles estão indicados ao Oscar de melhor ator coadjuvante.
Azar de quem tem que escolher apenas um pra ganhar.
Foi, com folga e galhardia, para minha lista de favoritos da vida. São duas horas e quarenta que irão passar como se fossem quinze minutos, vai sem medo!
📺 ONDE ASSISTIR? HBO Max.
🎞️ SONHOS DE TREM (TRAIN DREAMS) ⭐⭐⭐⭐🌟🖤
INDICAÇÕES: Fotografia, Canção Original, Filme, Roteiro Adaptado (4 indicações)
A história cobre um período de aproximadamente 80 anos, do final do séc. XIX até o final de 1960, o período da vida do protagonista, Robert Grainer – interpretado por Joel Edgerton, que anda em um momento sensacional de sua carreira –, um homem que pega trabalhos esparsos como lenhador para sustentar sua família formada pela esposa, Gladys, e pela filhinha. Esses contratos o levam para longe do pequeno rancho onde vive, forçando-o a se ausentar regularmente por períodos de dois a três meses.
Caminhando junto com Robert, observando o mundo através dos seus olhos tristes – e cada vez mais tristes –, com uma melancolia indisfarçada diante do pouco que somos em um mundo que é tanto, em uma vida que parece infinita até não ser mais, Sonhos de Trem é um filme difícil de explicar, mas fácil de entender, porque é um retrato da nossa condição. E, como nossa condição, é muito bonito e é muito triste. É feliz e é trágico. É trivial e é gigante. Tudo isso reforçado com primor pela lente formidável do brasileiro Adolpho Veloso, que aplica com maestria um plano aberto que tira nosso fôlego ou um primeiríssimo plano que dilacera nosso coração.
Mais um que saiu em 2025 e foi para minha lista de favoritos, para revisitar de tempos em tempos e ver se algum de nós dois envelheceu mal (mais provável eu do que ele). E um que eu gostaria demais que ganhasse alguma coisa. Em especial o prêmio de melhor fotografia, não apenas porque o diretor de fotografia é brasileiro, mas porque é realmente uma obra de arte nesse quesito.
É um filme de diálogos breves, mas digno de grandes citações. Me arrastou diversas vezes de volta ao meu livro favorito, dentre todos: Novecentos – Um Monólogo.
Com Oscar ou sem Oscar, veja este filme!
📺 ONDE ASSISTIR? Netflix.
🎞️ BUGONIA ⭐⭐⭐⭐⭐🖤
INDICAÇÕES: Atriz (Emma Stone), Trilha Sonora Original, Filme, Roteiro Adaptado (4 indicações)
Em um dos meus episódios favoritos de Seinfeld, George Costanza (meu animal espiritual) diz para Seinfeld:
– Você alguma vez já se ajoelhou e agradeceu a deus por me conhecer e ter acesso à minha demência?
É como eu me sinto em relação a Yorgos Lanthimos: que coisa maravilhosa ter acesso à demência desse homem!
Bugonia é sobre uma dupla de rednecks que bola um plano para sequestrar a CEO de uma empresa porque estão convencidos de que ela é uma alienígena vinda de Andrômeda para a terra.
Um dos matutos é cheio de explicações, conhecimentos e experiência sobre como os alienígenas operam e como se defender de suas técnicas de influência e manipulação. O outro é um panguá que vai na onda (pois é um panguá). Mas o negócio é que o plano deles funciona e, de fato, a CEO é sequestrada e levada para o porão da casa na qual vivem. Eles raspam a cabeça dela (pois os cabelos são transmissores que permitem que ela se comunique com e seja rastreada pela nave-mãe), besuntam o corpo dela com um creme anti-histamínico (para inibir os feromônios) e acorrentam a moça na cama. A partir daí começam as negociações.
Bugonia é uma crítica mordaz, ainda que divertida, à Corpocracia Estragofudidense. E te faz pensar no que vivemos hoje em dia, porque por mais absurdas e impensáveis que sejam as acusações do (não tão) apoucado Jesse Plemons contra a CEO interpretada por Emma Stone, é impossível não considerar que são factíveis, sim. Será até possível que uma corporação fizesse essas coisas aí, sim. Não tem nada de muito diferente do que a gente vê todos os dias, não. Infelizmente não temos, como ele tem, o grau necessário de paranoia pra atribuir todas as monstruosidades a invasores alienígenas e temos que aceitar que são ações humanas tomadas por seres humanos como a gente. Nisso o filme é generoso com Teddy, o personagem de Plemons, e cruel conosco: não temos desculpa. Não temos ninguém para culpar.
Bugonia é tão cáustico quanto Pobres Criaturas, e, embora Yorgos Lanthimos tenha decidido segurar a onda com aqueles planos em olho de peixe, a maluquice permanece ali, genial e intocada, o puro suco da insanidade. E quanto mais maluca a história fica, e quanto mais absurdas as consequências, mais ele dobra a aposta!
Infelizmente acho que Bugonia não vai levar nada. Emma Stone já ganhou o Oscar antes, a estatueta certamente vai para a estante de Jessie Buckley este ano. Pecadores deve garfar Trilha Sonora. Filme e Roteiro Adaptado pularão de bombinha no colo de Uma Batalha Após a Outra.
Mas fico feliz que esse dodói continue dirigindo seus filmes de dodói, brindando a humanidade com seu tipo muito particular de loucura. É divertido e deixa as pessoas burras frustradas, angustiadas e furiosas. Por favor, continue! Batamos palma, o doido está dançando!!
📺 ONDE ASSISTIR? Locadora Sueca™ (eu juro que essa porra desse filme estava na HBO. EU JURO! EU NÃO TÔ MALUCO!!).
🎞️ F1 – O FILME (F1: THE MOVIE) ⭐⭐⭐🌟
INDICAÇÕES: Edição, Filme, Som, Efeitos Visuais (4 indicações)
Você viu aquele Top Gun Maverick?
Então. Esse é o Top Gun Maverick de carrinho. E Top Gun Maverick é o F1 de aviãozinho.
Um velhote piloto de corrida – de qualquer tipo de corrida, que fique bem claro, chama o sujeito pra apostar corrida de rolimã e ele topa –, ex-piloto da F1, é convidado por um antigo companheiro de F1 a integrar a escuderia dele, que está em vias de receber uma tomada hostil dos stakeholders caso continuem sem pontuar na competição.
Lá, o piloto velhote, experiente mas sem muita paciência para firulas envolvendo manutenção da imagem pública, pois ele está velho demais para esta merda, terá que ensinar importantes lições para o piloto jovem, arrogante, talentoso mas inexperiente e excessivamente preocupado com a manutenção da própria imagem.
Pareceu clichê?
Que bom, porque é mesmo. Mas é divertido para um caralho! E os efeitos visuais… a indicação definitivamente não foi à toa e é merecida, que tome a estatueta das mãos daquela porra de Avatar 3 (que é o mesmo filme vendido como Avatar 2, que por sua vez é o mesmo filme vendido como Avatar 1, que por sua vez é Pocahontas, que por sua vez é Caninos Brancos).
Um dos produtores é ninguém mais, ninguém menos do que ele: Albert Einstein Lewis Hamilton. Então, em termos técnicos, é impecável. E você não precisa entender nada de Fórmula 1, carrinho, pneu de pista seca, pneu de pista molhada, pipipi popopo, nada disso é requisito, tudo será explicado conforme a necessidade e sem exposições excessivas, o roteiro é enxuto e competente nesse aspecto.
São duas horas e trinta e cinco minutos de entretenimento barato, vazio, barulhento e bonito. Cinema serve para isso? Ô se serve, embora sirva também para coisas muito mais importantes, inclusive fundamentais (voltaremos a isso em um instante).
📺 ONDE ASSISTIR? AppleTV+.
🎞️ O AGENTE SECRETO ⭐⭐⭐🌟
INDICAÇÕES: Ator (Wagner Moura), Elenco, Filme Internacional, Filme (4 indicações)
Ó, vou tirar isso da frente de uma vez, porque se você quiser dar chiliquinho já pode ir começando:
Eu acho o Kléber Mendonça Filho um LAMBÃO.
É isso aí mesmo que você leu. Os roteiros dele são sempre uma LAMBANÇA DO CARALHO. Não entendo muito bem o que se passa naquela cabeça: se ele tá cagando e andando para ser compreendido, se ele acha que A Arma de Tchekhov é para os fracos, é um conceito ultrapassado, desnecessário, se ele simplesmente entende a vida como essa ramificação de eventos infinitos (o que é verdade) e tomou como missão tentar transpor isso para o cinema da forma mais fiel (e confusa e desorganizada) possível…
O que sei é que ele é um mestre, um gênio, um campeão em enfiar mil elementos por segundo na história e trabalhar, quando muito, meia dúzia.
O resto? O resto é a sombra de árvores alheias…
É uma câmera que acompanha não o que de fato importa, mas o que ele quer acompanhar. O homem tem um fascínio quase infantil por tudo o que vê, ouve, é como uma criança com brinquedos demais: até tenta dar atenção para todos, mas é humanamente impossível. Então ele foca em alguma coisa por dez, quinze minutos, meia hora, e você pensa “Ok, isso será importante”, mas na cena seguinte vai para outro assunto e nunca mais volta naquilo que antes pareceu ter tanta relevância a ponto de ser destrinchado na sua frente.
Sendo justo, admito que neste ele se comportou bem melhor do que naquela merda que foi Bacurau, um filme no qual ele começa três ou quatro histórias e só te conta mesmo, até o final, uma. Aqui, não: ainda que de forma meio atropelada, ele começa e termina “a mesma” história. Com saltos temporais? Sim. Com elementos soltos? Também. Com focos longos em coisas desnecessárias? Sem dúvida alguma. A cena que abre o longa é boa? É. Poderia ter sido retirada sem prejuízo NENHUM para a narrativa? Ô se poderia.
Então é isso: se você curte um lance prolixo, uma penteadeira de puta, cheia de cacarecos, penduricalhos, coisa pra lá e pra cá, e que porra é essa aqui?, e aquilo ali serve pra quê?, mas é daqui que vai pra lá?, etc e tal, ah, você vai adorar esse filme!, você e Klebim serão grandes amigos!!
Mas se você fica meio assim assim de terminar uma história pensando “Porra, mas eu queria saber mais sobre tal coisa, por que ficou me falando de tal coisa se não ia me contar a sobre a tal da coisa, seu arrombado? Eu vim ver o macaco!”, então você vai terminar esse filme bem assim assim.
Acho que merece o Oscar de Filme Internacional? Não acho.
Dos 5 concorrentes, esse aqui, pra mim, fica em 4º.
Não sou clubista, lamento.
📺 ONDE ASSISTIR? Netflix.
🎞️ FOI APENAS UM ACIDENTE (IT WAS JUST AN ACCIDENT) ⭐⭐⭐⭐🌟
INDICAÇÕES: Filme Internacional, Roteiro Original (2 indicações)
Um carro com uma família segue por uma estrada escura. Meio da noite. Pai (ao volante), mãe e uma filha no banco de trás. O veículo dá um solavanco, o pai atropelou um cachorro. A menina começa a chorar, os adultos dizem que foi apenas um acidente. Mais à frente o automóvel dá um problema, eles param em uma oficina, que está fechada, mas o pai pede para dar uma olhada no carro. Permitem. O dono da oficina, Vahid, do andar de cima ouve a voz do homem. E um barulho característico que ele faz devido a uma perna mecânica. No dia seguinte Vahid rapta o homem, que acredita ter sido seu torturador, decidido a enterrá-lo no deserto. O homem jura que aquilo é um enorme mal-entendido, que ele é inocente!
Segue-se uma hora e meia de filme de uma espécie de comédia de erros na qual esse Vahid vai buscar a opinião de outras vítimas do mesmo sujeito, na esperança de confirmar se trata-se de seu torturador ou se ele está cometendo um erro terrível.
O filme tende muito mais ao bem-humorado do que ao dramático (em contrasto com histórias semelhantes, como Death and The Maiden). As interações às vezes são repetitivas ou desnecessárias, e em certo ponto a narrativa caminha para ficar cansativa, então vem o desfecho e a genialidade da produção, porque até determinado momento ela evoca risadas em decorrência do puro absurdo (que vai se tornando mais e mais absurda, ao ponto do inverossímil), e o que não é piada, em absoluto, soa como se fosse...
…e então faz uma curva.
E fica tudo muito sério. Muito rápido.
E é nessa nota que ele se despede.
Vale dizer que Jafar Panahi, o diretor, era procurado (e depois foi condenado) no Irã. Mesmo assim ele filmou em Teerã, com uma equipe reduzida, procurando ao máximo não chamar atenção das autoridades. Portanto a tensão transmitida, ainda que relativamente diluída por um aparente senso de humor, é real. Cada cobrança de suborno é o diretor contando sobre sua vida sob o regime iraniano. Cada absurdo, cada injustiça social é um grito de alerta. Nesse sentido o filme de Jafar Panahi e o filme de Kléber Mendonça Filho não são assim tão diferentes.
A diferença é que Panahi segue a mesma linha de raciocínio de ponta a ponta em vez de sair tergiversando feito doido.
Dos 5 indicados a Filme Internacional, esse aqui fica em terceiro, pra mim.
📺 ONDE ASSISTIR? Mubi.
🎞️ SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (IF I HAD LEGS I’D KICK YOU) ⭐⭐⭐
Indicações: Atriz (Rose Byrne) (1 indicação)
Você tem ansiedade?
Quer ter?
Porque, se quiser, eu tenho um filme pra te indicar!
Existem obras aconchegantes, que fazem a gente se sentir bem, contemplar a amplidão da vida, a extensão do mundo, observar, pasmos, boquiabertos, a beleza de existir e do que também existe.
Uma delas se chama Sonhos de Trem.
Já Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria jamais será uma dessas. Sequer tem essa pretensão. Porque essa ameaça é muito séria: se esse filme tivesse pernas ele te chutaria, é só o que falta fazer. Felizmente não tem, mas isso não o impede de causar no espectador um incômodo permanente, inquietante, angustiante…
Rose Byrne é Linda (também é linda, mas aqui ela faz o papel de Linda, presta atenção, porra!), a mãe temporariamente solo de uma criança que tem algum problema de saúde. Ninguém diz qual, e nem precisa. A filha de Linda usa uma sonda, por meio da qual se alimenta, e precisa atingir um certo peso para que a sonda seja retirada. O marido de Linda não está presente, sabemos apenas que está embarcado em algum lugar pelo mundo. Um buraco se abre no teto do apartamento de Linda, o imóvel alaga e ela precisa dormir no quarto de um pulgueiro qualquer com a filha por algumas semanas enquanto um empreiteiro conserta o estrago.
O marido cobra de Linda que o conserto do imóvel termine, que a filha melhore, que Linda dê informações sobre o andamento de tudo isso. Linda, além de gerenciar a reforma da casa, precisa trabalhar (como psicóloga, ouvindo os problemas alheios, como se os dela não fossem suficientes), levar a menina ao hospital para seus exames regulares, certificar-se de que a filha coma, comparecer ao grupo de apoio de mães (por insistência da médica da criança) e conseguir comprar uma garrafa de vinho enquanto tolera os comentários cruéis e o franco desprezo da atendente do hotel e o ar de enfado e apatia que recebe de seu psicólogo, interpretado maravilhosamente por Conan O’Brien, que também irá apresentar o Oscar.
A câmera permanece o tempo quase todo em primeiro plano sobre o rosto de linda. A filha e o marido são vozes. Algumas outras pessoas também aparecem, como a atendente do hotel e o psicólogo, mas a proximidade permanente da câmera, as cobranças vindas de pessoas que não vemos, os problemas que não se resolvem, as microexpressões de Linda logo ali, colada na nossa frente, todas essas coisas constroem um filme que só pode ser definido como claustrofóbico.
Venho me perguntando se essa história não falou comigo para além de um certo ponto porque – peço perdão se essa informação for um choque para alguém – eu não sou a mãe de meia idade de uma menina doente. Então acredito que muitas das angústias que estão ali, estampadas na cara da atriz (e, meua migo, que atuação foda da Rose Byrne! Ela merecia DEMAIS esse Oscar, ainda que não seja minha favorita), passaram batidas para mim e meu modo meio pragmático, meio irresponsável de levar a vida.
Imagino que para uma mulher que tem filho(s) ele dê uma cutucada mais forte algum nervo exposto. Ou de fato a situação é arrastada por mais tempo do que o sustentável e, ao fim, cai por terra? Se você faz parte da demografia elencada acima, veja e me diga.
📺 ONDE ASSISTIR? Cinema.
🎞️ HAMNET ⭐⭐⭐⭐
Indicações: Atriz (Jesse Buckley), Elenco, Figurino, Direção, Trilha Sonora Original, Filme, Design de Produção, Roteiro Adaptado (8 indicações)
Centrado na história de Anne Hathaway (aqui chamada Agnes), a esposa de William Shakespeare (sim, ela também tinha esse nome), tendo o próprio Shakespeare como coadjuvante e focado em analisar a correlação entre a morte do filho do casal (Hamnet) com a produção da peça (talvez) mais conhecida do bardo inglês, Hamlet.
Desconsiderando inconsistências históricas, gostei muito dessa mudança de perspectiva que a Chloe Zhao oferece sobre a relação entre Shakespeare e Agnes, historicamente presumida como conflituosa e objeto de comentários maldosos de biógrafos e historiadores devido às prolongadas ausências do marido na residência do casal.
Aqui o vínculo entre os dois não é apenas matrimonial, mas amorosa, de parceria, companheirismo legítimo. São duas pessoas que veem uma à outra como são e respeitam os limites e desejos de cada uma, entendendo que a vida com o outro requer, exige a aceitação do outro como outro, não como eu, e que o outro querer algo que vá além de mim não é demérito meu, mas direito do outro.
Óbvio que existem conflitos e desentendimentos, mas, ao fim, a relação de amor suplanta as diferenças entre ambos – ele um homem da contemplação, da leitura, do estudo, dos livros; ela uma mulher da natureza, dos espaços abertos, voluntariamente alheia à sociedade.
A estrutura familiar que se sucede a essa união é, obviamente, abalada pela morte do menino Hamnet, então com 11 anos. A partir daqui há os que acusem o filme de ser excessivamente melodramático, ao que eu torço um pouco o nariz. Além do fato óbvio da natureza do luto ser uma questão muito particular, em momento algum o olhar da Chloe Zhao sobre aquela experiência me pareceu excessivo ou fetichista (fundação de uma abordagem melodramática). A passagem na qual Ser ou Não Ser é declamada pelo próprio Shakespeare enquanto contempla a ideia de suicídio, concedo, forçou a mão. Além disso, ao menos na legenda que eu baixei, o soneto XII, em certo ponto recitado de passagem, não foi colocado na tradução do Ivo Barroso.
Essa, sim, uma baita cagada. Mas não do filme.
Apesar de uma “polêmica” (totalmente idiota) graças a um comentário inócuo que a atriz fez em um podcast sobre não gostar de gatos, tenho certeza que a estatueta já está com o nome de Jesse Buckley inscrito na base. É para quem eu gostaria que o prêmio fosse? Não, ainda que, de fato, a interpretação dela tenha sido fantástica.
“E para quem você gostaria que o prêmio fosse, Pedrúnculo?”
Já saberás, filhote. Já saberás!
Sobre as outras indicações, Hamnet não é favorito a nenhuma. Mas o jogo, afinal, só acaba quando termina. E a Academia gosta de histórias que flertam com o melodrama (✅), que contêm atores mirins carismáticos (✅) e que tecem loas ao cinema (e a seu antepassado, o teatro) como válvulas de escape contra o desamparo (✅).
Então temos aí um azarão que pode chegar chegando.
📺 ONDE ASSISTIR? Cinema.
🎞️ VALOR SENTIMENTAL (SENTIMENTAL VALUE) ⭐⭐⭐⭐⭐🖤
Indicações: Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgård), Atriz (Renate Reinsve), Atriz Coadjuvante (Elle Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas), Direção, Edição, Filme Internacional, Filme, Roteiro Original (9 indicações)
Ok. Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas vamos falar de cinema sério. Cinema foda. Cinema pra gente grande.
Valor Sentimental conta a história de uma família norueguesa, pai e duas filhas, dos laços que unem nossas misérias particulares, de dores geracionais que recebemos e transmitimos sem dizer nem uma palavra. Gustav, diretor de cinema interpretado por Stellan Skarsgård, separado há décadas de sua ex-mulher e vivendo na Suécia desde o divórcio, retorna para a Noruega quando ela morre. Volta decidido a dirigir um filme claramente autobiográfico – por mais que ele negue – tendo como cenário a casa de sua família (que deixou para a ex-esposa) e com a filha mais velha, Nora, como atriz principal.
Nora, entretanto, não quer se envolver em nada ligado a esse pai que julga tê-la abandonado e sobre quem nutre farto ressentimento. Negar a ele não apenas atuar em seu roteiro, mas sequer ler o material é uma pequena (e justificada) crueldade que ela não hesita em cometer. Fazendo o possível para intermediar a relação entre os dois está a irmã mais nova de Nora, Agnes, que lida melhor como pai e a organização de seus sentimentos.
Se a filha recusa o papel isso não significa que ele vai desistir da produção. Logo Gustav conhece a atriz Rachel Kemp, interpretada por Elle Fanning, e decide dar a ela o papel que seria de Nora. Rachel é uma atriz jovem, estragounidense, ansiosa por se provar como alguém capaz de atuar em um “filme de verdade” e a oportunidade de trabalhar com Gustav, um diretor cult que ela admira, é abraçada sem ressalvas, ainda que, à medida que a produção se desenrola, ela desenvolva sentimentos de inadequação relacionados àquele projeto.
Há uma questão sobre legitimidade aqui. Não é bem uma crítica a determinado tipo de ator, desta ou daquela nacionalidade, mas uma observação sobre sintonia, talvez. Nora sente um deslocamento, um desajuste, que é inerente, é dela. Gustav convive com sentimento semelhante, ainda que a idade tenha lhe ensinado a fazer as pazes com tal condição. Já Rachel vive um deslocamento circunstancial: ela está, ela não é. Assim, a leitura que Rachel faz, em certo ponto, de uma passagem do roteiro, é absolutamente inautêntica, por mais que ela se esforce em torná-la verossímil. Quando Nora lê, a pedido da irmã, esse mesmo trecho, ela não está passando o texto: o texto está passando por ela.
É interessante como há um tema que se repete nos filmes deste ano: o das ondulações que a violência causa na superfície da nossa identidade e como isso se transfere para as gerações futuras. Vamos encontrar variações dessa perspectiva em O Agente Secreto, Pecadores, Uma Batalha Após a Outra, um pouco (muito pouco) em Hamnet… aqui existe também esse registro. E ele, se não justifica, ao menos explica determinadas idiossincrasias que geram em cada um dos envolvidos uma bagagem inevitável, o peso que vão precisar carregar, de um jeito ou de outro, vida afora.
Se dependesse de mim este filme levaria todas as estatuetas às quais concorre. Exceto Filme Internacional – por razões que ficarão claras mais adiante, embora, no meu ranking, seja o melhor desta categoria – e obviamente as duas atrizes coadjuvantes não poderiam vencer, então Elle Fanning que me perdoe, mas Inga Ibsdotter Lilleaas iria para casa com o Surfista Prateado Dourado.
É um filme que pretendo ver outras vezes. Absolute Cinema!
📺 ONDE ASSISTIR? Mubi.
🎞️ MARTY SUPREME ⭐⭐⭐
Indicações: Ator (Timothée Chalamet), Elenco, Fotografia, Figurino, Direção, Edição, Filme, Design de Produção, Roteiro Original (9 indicações)
Quando falei de Paris, Texas, eu disse o seguinte:
“Histórias de filhos da puta podem ser divertidíssimas, mas para isso acontecer a primeira coisa que o autor da história precisa reconhecer é que trata-se de um filho da puta. Ele não precisa te fazer antagonizar com o filho da puta, apenas reconhecer de que tipo de ser humano estamos tratando aqui. É o mínimo de sinceridade, bicho.”
Leia lá, se quiser:
Pois bem. Foi isto que Josh Safdie nos trouxe: a história de um filho da puta. Um filho da puta carismático, arrogante, prepotente, presunçoso, amoral. Um filho da puta que tem um objetivo e um objetivo apenas, que pretende levar a cabo não importa quantas pessoas ele precise manipular, atropelar (literal ou figurativamente), pisotear pelo caminho. Desde que o objetivo seja atingido, tudo se justifica. Qualquer falha, cagada, sacanagem pode ser remediada depois. DEPOIS. Agora o objetivo está à frente e é para ele que vamos!
É impossível torcer pelo protagonista do filme, mas também não é possível torcer por aqueles que o cercam: não existe 1 (huma) unidade de serumano digna de empadinha aqui. Nem Marty Mouser, o mesatenista obcecado em ser reconhecido como o melhor do mundo, interpretado por Timóteo Chalamet, nem suas vítimas. E são muitas!
É uma narrativa frenética e sem freios. É uma história que você acompanha e percebe rapidamente que nem quem ganhar, nem quem perder vai ganhar ou perder: vai todo mundo perder.
Não é um baita filmaço, embora o design de produção seja fantástico (só não digo que vai levar a estatueta porque, né, Sinners, Hamnet e, correndo por fora, Uma Batalha Após a Outra). Mas Timóteo entregou tranquilamente a melhor performance de sua carreira (ainda não vi o filme do Bob Dylan e mesmo assim cravo essa afirmação sem receio de falar merda).
Acredito que ele vai levar o prêmio. Veja bem: isto não é torcida. Nesse caso eu torço mesmo pro Wagner Moura, aquele lindo (mas acredito que não leva).
📺 ONDE ASSISTIR? Cinema.
🎞️ BLUE MOON ⭐⭐⭐
Indicações: Ator (Ethan Hawke), Roteiro Original (2 indicações)
Me senti em 2024.
Em 2024 eu vi aquele filme sobre o Leonard Bernstein estrelando o Bradley Cooper (que também dirigiu) como Leonard Bernstein. Maestro. E eu assisti e fiquei “Beleza, irmão, muito legal, mas e daí?”.
Corta para 2026.
Em 2026 eu vi esse filme sobre o Lorenz Hart, que escreveu, dentre outras músicas, Blue Moon (que aqui eu vou deixar na versão do The Marcels porque é a melhor versão, mals aí, Sinatra). E eu assisti e fiquei “Beleza, irmão, muito legal, mas e daí?”.
Tenho um grande apreço pela produção do Richard Linklater. Waking Life, Boyhood, a trilogia do Antes do Amanhecer… até de School of Rock, com o Jack Black (eu odeio o Jack Black, Elle Fanning que me perdoe mais uma vez, mas desconfio estar exigindo demais da misericórdia dessa senhora), eu gosto. Mas cinebiografia cai muito nas imortais palavras da filósofa Avril Lavigne.
Quer dizer, como é que você concentra toda a vida de uma pessoa em uma hora e meia, duas horas, três, que sejam? Aqui, no caso, em uma hora e quarenta minutos. E aqui, também vale dizer, tudo o que temos é uma noite ao lado de Lourenço. Ele está em um bar, aguardando a chegada de duas pessoas: seu parceiro de trabalho Richard Rodgers e uma senhorita apetecível chamada Elizabeth Weiland.
Hart é uma figura trágica em si mesma: alcoólatra, bissexual (define-se como homossexual e talvez fosse, talvez ficar entusiasmado com a ideia de dar uns apertos na Margaret Qualley não tenha nada a ver com sexualidade) nos Estragos Fudidos da década de 40, medindo meros 1.52m, dotado de um senso de humor agudo e com zero preocupações com as convenções sociais – pelo contrário, achava divertidíssimo dizer coisas “chocantes” (para a época, hoje ele seria normal) –, o filme inteiro é conduzido pelos diálogos de Hart com as outras pessoas no ambiente. O bartender, um jornalista, um rapaz ao piano, Elizabeth e Richard Rodgers, quando chegam.
Apesar do sarcasmo infinito e dos gracejos constantes, Hart é frequentemente lembrado – pelas circunstâncias, olhares, reações alheias ou por si mesmo – de sua desimportância, da qual se ressente. Acaba de ocorrer a estreia de Oklahoma!, um musical que seu parceiro de trabalho escreveu com outra pessoa. Hart achou tudo ridículo, mas as pessoas parecem amar. Seus comentários venenosos são tomados como inveja (talvez sejam, em parte, ainda que ele tenha razão: Oklahoma! é um musical bem idiota). As pessoas no bar estão ali para encontrar Rodgers e Hammerstein – o letrista “rival” de Lourenço, criador de Oklahoma! com Rodgers.
Até Elizabeth pede a Hart para ser apresentada a Rodgers. E, embora ele não diga nada, seus olhos dizem muito. Com este gancho, vale mencionar a imensa atuação do Ethan Hawke. A idade trouxe a ele grandes oportunidades e o homem não está desperdiçando. Hawke, que tem cabelos e é um homem de boa estatura, incorporou sem exageros a persona de um homem baixinho, de calvície mal disfarçada, propenso a vícios e compulsões. Infelizmente calhou de ser indicado justamente este ano, tenho sérias dúvidas se será agraciado com a estatueta (se fosse pra apostar eu iria em “não”).
O resultado final é bom: bem produzido, diálogos rápidos e inteligentes (traço marcante do Linklater), com excelentes tiradas de Lourenço, às vezes até devolvidas à altura pelos outros presentes no bar – frequentemente pelo bartender, inclusive, encarnado como a figura clássica do filósofo-literato-psicólogo que também te serve álcool. O sonho de qualquer bebum! As conversas entre Lorenz e ele sobre Casablanca me deram vontade de rever Casablanca. Talvez seja este o grande mérito do filme!
Ou talvez este último seja um comentário maldoso, mas talvez não seja: tenho cá minhas dúvidas se este título resistirá ao teste do tempo. Me parece que, tal e qual Maestro, e tal e qual Lorenz Hart, vai deslizar em direção a um semi esquecimento silencioso, ainda que cercado de boa música.
📺 ONDE ASSISTIR? Locadora Sueca™.
🎞️ A VOZ DE HIND RAJAB (THE VOICE OF HIND RAJAB) ⭐⭐⭐⭐⭐
Indicações: Filme Internacional (1 indicação)
O tema é comum. Batido, até: uma pessoa está em uma zona de guerra ou situação de perigo, cercada por aqueles que a consideram um inimigo, um alvo ou uma presa.
Em outro lugar, alguém normal, trabalhando em um emprego normal que envolve o uso do telefone para atendimento ao público, recebe uma ligação da pessoa em situação de perigo. Segue-se um drama sobre a organização da operação de suporte ou resgate, o inevitável elo humano que se formará entre dois indivíduos: um em total segurança, o outro em situação de extrema fragilidade. Este elo será mantido por meio de algo tão frágil quanto uma linha telefônica, as tensões acirradas enquanto o grupo de atendentes, impotente e nervoso, busca auxiliar de todas as formas possíveis a pobre alma fora de seu alcance.
Clichê. Batido. Isso no caso de outros filmes assim.
Não no caso deste.
Não é o caso deste por algumas razões, a principal sendo que esta é uma história real. E recente. Aconteceu há pouco mais de dois anos.
O carro de uma família palestina foi alvejado por tropas do exército israelense enquanto eles abandonavam um bairro de Gaza (por ordem do próprio exército israelense). Dentro do carro estavam sete pessoas: um tio e uma tia de Hind, quatro filhos do casal e ela. Após o primeiro ataque, apenas ela e uma prima de 15 anos sobreviveram. Enquanto a prima ligava para o serviço de resgate, o carro foi alvejado novamente. No filme, ouvimos os gritos da menina sendo assassinada pelos nazistas israelenses.
Os gritos não estão lá como um recurso apelativo: estão lá porque todas as conversas que ouvimos entre a equipe do Crescente Vermelho Palestino e as vítimas da SS de Netanyahu são gravações das ligações recebidas pelo Crescente Vermelho em 29 de janeiro de 2024. A voz em pânico que chorava e implorava por socorro antes de ser brutalmente assassinada era de Layan Hamadeh. Quando Hind Rajab, com 5 anos, pega o telefone para pedir ajuda, a voz da menininha que ouvimos não vem de uma atriz.
É a voz de Hind Rajab.
Eu não sei que sensação a ideia de ouvir algo assim te causa. Se gera interesse no filme ou se te faz pensar “será que tenho estômago pra um negócio desses?”. O que sei é que se o padrão, em histórias desse tipo, é que um mocinho apareça para salvar a vítima no momento final, fazendo com que a situação termine de forma positiva, bom, pode esquecer.
Quando, depois de 3 horas em busca de aprovação dos burocratas da morte Israelenses, a equipe do Crescente Vermelho recebeu o sinal verde para mandar uma ambulância resgatar a menina, e a equipe formada por dois socorristas – Yusuf al-Zeino e Ahmed al-Madhoun – aproximou-se do carro, um blindado israelense disparou contra o veículo de socorro, matando os paramédicos.
Por fim, os corpos de Hind Rajab, de sua família e dos paramédicos só puderam ser recuperados 12 dias depois.
E este é o filme a respeito do qual não dei avisos antecipados sobre spoilers. Porque não se trata de uma história de ficção. Porque é algo que aconteceu e precisamos estar cientes de que aconteceu. Porque, se você tirar uma hora e meia para assistir a esse filme, espero que esteja preparado(a) para ouvir a história na voz de Hind Rajab. Nas vozes de Yusuf al-Zeino, Ahmed al-Madhoun e Layan Hamadeh.
Tenho sentimentos conflitantes quanto a indicar este filme para os outros. Vou tentar explicar por quê:
Dentre os filmes que já me causaram um estado absoluto de tristeza, consternação, perturbação mental, revolta, este aqui está em primeiro. Não é incomum que o cinema me faça chorar, por qualquer razão.
O que esta história fez foi bem diferente.
Então, ao mesmo tempo que considero fundamental que seja visto, que ganhe espaço, que seja discutido, debatido, transmitido, apresentado a mais e mais pessoas, também tenho um certo receio do que testemunhar algo assim pode fazer com as pessoas. Se não ficou claro: ainda que reconheça o valor desta produção, ainda que diga, com todas as letras, que é para isso aqui que o cinema existe, também recomendo cautela a quem se interessar.
Se for, vá ciente. Eu fui até ele meio às cegas. Hoje, sabendo o que sei, não teria ido.
Enfim. O filme se aproxime muito de um documentário, com tomadas que misturam os momentos reais vividos na central de atendimento do crescente vermelho com a dramatização – de uma fidelidade aterradora – realizada pelos atores. Pode-se dizer que, em termos de produção, não é um filme riquíssimo, seja lá o que isso quer dizer. Mas não interessa: se um deles deve ganhar o Oscar de Filme Internacional, é este. Para mim, está em primeiro lugar.
A diretora, Kaouther Ben Hania, precisa ter o direito de subir naquele palco e reiterar a denúncia do que Israel está fazendo. Não vai mudar nada, sabemos, não tenho esse tipo de ilusão. Mas, enquanto essa situação permanecer, anualmente é importante que alguém vá até lá e diga a verdade, ainda que os eventos dos últimos festivais (Berlim, por exemplo) deixem bem claro que o lobby israelense está sendo pesado (e pagando bem) para silenciar todos os que estiverem dispostos a denunciar o genocídio em curso.
Negar à diretora a oportunidade de falar será apenas mais uma violência contra o povo palestino.
Veremos.
📺 ONDE ASSISTIR? Cinema.
🎞️ SIRÂT ⭐⭐⭐🌟
Indicações: Filme Internacional, Som (2 indicações)
Sirât conta a história de Luis, um homem em busca da filha, frequentadora de raves e desaparecida há cinco meses. Acompanhado do filho de 11 anos, Esteban, Luis comparece a uma rave no Marrocos para distribuir fotos da filha e perguntar se alguém a viu. Lá encontra um grupo de frequentadores de rave, pessoas que têm isso como um estilo de vida (passei boa parte do filme pensando “do que caralhos essas pessoas vivem?”), que o informam sobre sua intenção de cruzar o deserto – o Saara nunca é chamado pelo nome – em direção a outro evento após o fim daquela festa. Luis decide se juntar a eles e, quando a festa é interrompida pela invasão de soldados reagindo a algum conflito – que o filme também não se preocupa em explicar -, passa a segui-los com a van na qual mora com o filho durante essa peregrinação em busca da filha perdida.
Há um ponto a se ressaltar aqui: como a história não existe exclusivamente sob a ótica da “realidade”, muito do que se passa é simbólico. E se, por um lado, existe a grande qualidade dos personagens não passarem a história afirmando o óbvio, explicando o significado de cada coisa, tratando o espectador como idiota (sim, Frankenstein, é de você que eu estou falando) e esclarecendo os signos que remetem a mitologias (basta dizer que a chave vira de vez na narrativa a partir do ponto em que os personagens atravessam um rio)…
…por outro lado tenho uma resistência a elementos simbólicos e referências que exigem da audiência letramento prévio sobre outros assuntos. Uma história deve ser e sustentar-se em si mesma. Sua característica dialógica precisa ser um bônus, não um fundamento. Já disse aqui como classifico o contrário, não vou me repetir.
Portanto, se Oliver Laxe tivesse se ocupado em estabelecer uma linha de diálogo mais direta com a audiência, talvez algumas críticas que pulularam por aí, especialmente após um remoque bobo do diretor em um programa de TV Espanhol (e, francamente, ele não estava errado: o brasileiro está pouco se fodendo para a competição, para o cinema, para a qualidade do filme, qualquer coisa, o que o brasileiro quer é ganhar, todo o resto é irrelevante.), não tivessem surgido. Talvez houvesse maior pudor das pessoas em manifestar sua idiotice com afirmações simplistas como “ai, história sobre hippies”, “história de colonizadores”, “white people problems”, “história de europeus privilegiados”, etc., sendo que a narrativa visual deixa o contrário bem claro. Mas não vou me alongar rebatendo essas bobagens. Primeiro porque este texto já está longo o suficiente. Segundo porque todo mundo tem o direito de ser idiota. Vá e manifeste o seu à vontade, não sou seu pai.
E, por fim, porque tem gente que só quer mesmo se mostrar superior torcendo o nariz e dizendo “ai, ai, europeus” e foda-se.
Ninguém está imune a bancar o sociólogo de Twitter, afinal.
Enfim. Sirât fica em quinto lugar dentre os 5 indicados a melhor filme internacional, para mim.
Ah, veja o filme no cinema, se puder. Lindíssima fotografia. Me surpreende que não tenha sido indicado.
📺 ONDE ASSISTIR? Cinema.
🎞️ SONG SUNG BLUE: UM SONHO A DOIS (SONG SUNG BLUE) ⭐⭐⭐
Indicações: Atriz (Kate Hudson) (1 indicação)
Por fim, Song Sung Blue conta a história de um casal, Mike e Clair Sardina, também conhecidos como Lightning & Thunder, cantores nas horas vagas, performers por paixão e hobby, que se juntam e fundam uma banda para tocar shows em tributo ao Neil Diamond em Milwaukee em algum momento no final dos anos 80, começo dos anos 90.
Foi o último que vi porque sabia que era algo sobre o Neil Diamond, e tudo o que sei sobre o Neil Diamond eu aprendi contra a minha vontade neste filme. No caso, o que aprendi foi que:
1) Sweet Caroline não é apenas a única música do Neil Diamond conhecida por mim, é a única música do Neil Diamond conhecida por muita gente. Inclusive eu digo há alguns anos que não faz diferença alguma quem foi que escreveu uma determinada música: existem artistas que, quando gravam sua música, ela deixa de ser sua. Passa a ser deles. É o caso de Sweet Caroline, famosa na voz do Elvis. Tenho a impressão de que parte da intenção do filme foi devolver a autoria da música ao Sr. Diamante. Diria que eles, se não foram bem-sucedidos, ao menos demonstraram esmero na missão e a tentativa foi bastante divertida.
2) Além dessa, Neil Diamond escreveu um punhado de outras canções que eu conhecia, sim, só não sabia que eram dele (como I’m a Believer, que conheci na versão do Smash Mouth que toca em Shrek).
O filme não é ruim. Também não é excelente. Tem o problema comum a cinebiografias produzidas sobre pessoas ainda vivas: esbarrar em uma chapa-branquice que torna todos os retratados dignos de canonização. Todos são boas pessoas e estão tentando fazendo o melhor.
O que impede que essa simplificação das relações, motivações e comportamento humano se torne tediosa é, além da trilha sonora excelente, o carisma absoluto dos protagonistas, Hugh Jackman e Kate Hudson. Os dois levam a produção nas costas. Com trinta minutos de filme eu já estava a bordo e deixei que a narrativa me carregasse. Depois de uma hora começam as viradas dramáticas, e acredito que pesaram um pouco a mão nesse aspecto, conduzindo a história para uma situação que só pode ser definida como “mas a galera não tem um minuto de paz neste caralho?”. Talvez tenham mirado na mensagem “os deuses vendem quando dão”? Talvez. Meu pessimismo me conduziu a outras conclusões, entretanto. Mas deixarei que você tire as suas.
Vale as duas horas da sua vida que ele te pede. Pense que você está ouvindo uma boa coletânea de covers de pop-rock-clássico.
📺 ONDE ASSISTIR? Cinema.
Foi isso. Substack está me avisando que este texto chegará truncado ao seu e-mail. Então, se você estiver lendo este final, provavelmente está dentro do Substack. Peço desculpas pelo transtorno, mas para evitar isso eu teria que quebrar o texto em 3 pedaços e preferi te forçar a vir aqui a te fazer receber 3 newsletters no mesmo dia.
Este ano, como em 2024, vou deixar aqui também o link para a cédula de votação elaborada por Todd Vaziri, caso você queira preencher a sua e comparar seus palpites aos resultados da premiação. Logo abaixo posto a minha. Em azul estão os palpites de quem eu acho que vai ganhar. Em vermelho, aqueles que eu gostaria que ganhassem.
Se marquei na mesma categoria mais de um palpite em vermelho é porque qualquer uma das vitórias vai me deixar feliz. Se marquei mais de um em azul é porque sou um bêbado. Ignore-me.
As categorias nas quais não marquei nada é porque não sei e/ou não me importo com o que vai acontecer
Por fim, agradeço demais pela paciência e pela leitura.
Domingo saberemos!














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