[047] Da Pragmática
Ou seria Da Semântica?
— Bom dia. Eu gostaria de falar com o setor financeiro.
— Por quê?
— Por que o quê?
— Por que você gostaria de falar com o setor financeiro?
— ...como assim?
— O que eles têm para te dizer que é tão interessante? Digo, você gostaria, gostaria mesmo, de ficar feliz e tudo? Nunca imaginei que alguém gostasse de falar com o setor financeiro, achava que era um daqueles males necessários: falamos com o setor financeiro porque surgem problemas que apenas o setor financeiro pode resolver, ou, o que é mais provável, o setor financeiro nos causou problemas e, tal e qual a pior das máfias, precisamos recorrer a eles para que os problemas sejam solucionados. Mas aí está você, e você gostaria – veja só, GOSTARIA! – de falar com o setor financeiro! Que prazer pode haver nisso?
— Bom, não é bem assim. Na verdade eu quero falar com eles.
— Quer?
— Quero.
— Então você deseja. Anseia, até? É quase uma necessidade?
— Não, não é pra tan... olha, dá pra você passar minha ligação para o financeiro, afinal de contas?
— Dar, dá. Claro que dá, é para isso que existe esse sistema de telefonia bacana aqui na empresa: para que possamos transferir ligações. Então, sim, dá pra te passar para o setor financeiro.
— Então, por favor.
— Por favor o quê?
— Me transfira para o setor financeiro, eu quero solicitar um boleto.
— Você quer?
— Oi?
— Você quer solicitar um boleto?
— Sim.
— Por que diabos alguém iria querer um boleto? Se você não tem um boleto, isso é uma coisa boa: uma preocupação a menos. Mas você quer um boleto? Você quer ter que pagar um boleto? Quer ter que abrir o aplicativo do banco, mirar a câmera no código de barras, a porra toda? Você QUER um boleto? Você é uma dessas pessoas cuja existência é momentaneamente justificada ao pagar uma conta, ao cumprir uma obrigação? E depois? O vazio não é esmagador? Você não se sente novamente inconclusivo, desnecessário, sem sentido?
— Tá, tá, eu não QUERO um boleto, digamos que eu preciso de um.
— Alguém já te disse que você faz péssimas escolhas de palavras?
— Cara, quem é você? Com quem eu estou falando? Em que setor você trabalha?
— Calma, foram três perguntas.
— RESPONDE!
— Ok, vamos lá: a resposta para a primeira questão é complexa. Você pergunta em um sentido metafísico? Existencial? Meramente burocrático? É preciso ser mais específico, as implicações são inúmeras… A segunda questão é bem simples e, francamente, até meio besta: você está falando comigo.
— Certo, e em que setor você trabalha?
— No setor Semântico-Filosófico.
— Pra que diabos a empresa tem um setor Semântico-Filosófico?
— Descobrir a razão de ser do setor é parte das atribuições do setor.
— E já descobriram?
— Teremos uma reunião para discutir isso amanhã.
— Sei. A conversa tá ótima, mas... e o financeiro?
— O financeiro não vai participar, eles são muito pragmáticos.

o setor pragmatico iria adorar umas tias pedantes inglesas que retrucam quando você fala 'can I sit' e elas 'May I sit'. Después levam um V de dois dedos na fuça e ficam 'Oh dear I was taken aback by the aggression in your manners'